07/08/03 - Entrevista para o site PunkNet
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Link da entrevista: http://www.punknet.com.br/edicao/agosto3/entrevistas/coice/index.shtml

07/08/2003 – Se morássemos perto, provavelmente Carlos Granja, vocalista/baixista do Coice de Mula, estaria roubando os meus livros e eu inventando alguma desculpa esfarrapada pra não pagar aqueles 23 paus de alguma conta feita em algum pé sujo. Enfim, coisas que amigos costumam fazer. Como a distância geográfica nos priva dessas pequenas alegrias, continuamos nos econtrando no Fórum aqui da casa, onde essa entrevista foi inteiramente realizada. Granja conversa com a fauna do fórum sobre os 4 anos de banda, próximo CD, êxitos, roubadas, orgulho caipira, chapéus e responde com a habitual simpatia às perguntas clichês que alguns desses putos não se deram ao menor trabalho de elaborar.

Canhota

>>> Como e quando começou o Coice de Mula? E por que esse nome?
Enviada pelos usuários BiLLy e Peter Ramone

Eu já estava morando em Campinas há 9 meses. Apesar de Campinas ser uma cidade do interior para mim era e continua sendo uma cidade muito grande porque eu fui criado numa cidade bem menor. E depois de algumas tentativas de montar uma banda na minha antiga cidade achei que em Campinas eu teria maior facilidade para isto. Fui na única lojinha de rock no centro de Campinas que eu conhecia, chama-se Metal Mania, e colei um cartaz dizendo minhas influências e que eu tocava baixo e que queria montar uma banda. Depois de 2 semanas me ligaram convidando para um ensaio. E foi assim que numa noite fria de inverno (quando o inverno costumava ser frio), mais especificamente no dia 28/07/99 que eu encostei meu antigo chevette 77 na porta de uma garagem para o primeiro ensaio. Lembro que passei 9 meses depois na mesma loja e o cartaz continuava lá mas durante todo este tempo ninguém mais havia me ligado. Então, chegei a conclusão de que tive sorte. Eu sou o único remanescente desta primeira formação. No começo não tínhamos aquela mentalidade de ser uma banda de verdade, gravar demo, etc. Só queríamos tocar covers. Mas logo percebemos que estávamos errados e ainda em 1999 gravamos nossa primeira demo em fita K7 com três músicas nossas e a partir disto começamos a ser reconhecidos como uma banda, como o Coice de Mula.

Quando surgimos em 99 existia toda uma tendência das bandas em colocarem nomes em inglês, todos eram influenciados por NoFX e Millencolin. Sempre gostei de nadar contra a corrente. Então, a primeira decisão é que o nome seria em português. Queríamos um nome expressivo e pouco comum, um nome que identificasse a sonoridade da banda. O nome Coice de Mula apareceu e se adequava perfeitamente na proposta que buscávamos. E além de tudo isto o nome ainda nos referenciava como uma banda do interior.

>>> Já enfrentaram algum tipo de preconceito por parte de público ou dificuldades para tocar, gravar, etc., por serem uma banda do interior?
Enviada pelo usuário o canhotinha de ouro

Já enfrentamos bastante preconceito mas na maioria das vezes o preconceito veio dos próprios "punks", eles viam uma pessoa de chapéu no palco e simplesmente tiravam suas conclusões: "Que babaca, pensa que é engraçado o chapéu, vamos embora..." Enfrentamos constantemente inúmeras dificuldades por sermos uma banda do interior também. Tenho quase certeza que se fossemos uma banda de São Paulo estaríamos fazendo muito mais shows do que fazemos hoje e talvez até teríamos até um selo para nos suportar. É triste dizer isto mas nós como uma banda de 4 anos que gravamos e lançamos um CD independente não conseguimos marcar um show em casas como o Hangar 110 (só como exemplo), porque todo mundo sabe que banda do interior não tem muito público, mas bandas com 6 meses já tocam lá. Estamos com um CD novo gravado há um ano e não conseguimos lançar ainda. E depois de perceber tudo isto fiz questão de mostrar que somos uma banda do interior e que temos orgulho disto, aqui pelo menos nós temos a oportunidade de sair no jornal com foto, aparecer na TV local, tocar na rádio, porque temos um reconhecimento aqui. Enfim, sou grato por fazer parte de uma banda no interior, só não estou satisfeito por termos sempre as portas fechadas na capital.

>>> E por que motivo você acha que na capital as portas estão mais abertas para bandas de cidades do Espirito Santo, Rio de Janeiro, Curitiba, do que para as cidades do proprio estado de São Paulo??
Enviada pelo usuário Rim Exposto

Não é exatamente isto o que eu acho. Acredito que tem muitas bandas boas no Espirito Santo, Rio de Janeiro, Curitiba e outros estados que são boas e que também não tem estas oportunidades. Você pode perceber que as portas estão abertas em São Paulo para bandas como Dead Fish, Mukeka di Rato, Carbona, mas é porque estas bandas tem os seus méritos. Elas batalharam e tem o seu público e é isto que o dono de uma casa de shows quer, não tiro a razão dele. Mas acho que deveriam ter mais oportunidades para outras bandas, os caras nunca viram um show nosso como eles podem nos excluir desta forma? Este pessoal deveria acreditar mais no potencial de algumas bandas. Existem outros métodos para se tocar em algumas casas que incluem a politicagem entre as bandas, ou as formações de panela como são popularmente conhecidas. Mas não sou adepto desta vertente. Amizades por interesse não rolam.

Como você definiria o Coice de Mula? E suas influências (no som na imagem)?
Enviada pelo usuário Rim Exposto

O Coice de Mula não está preso à muitas definições. Sempre pensei numa banda que pudesse criar músicas com liberdade de estilo. Apesar de termos uma característica punk rock marcante nas músicas, quem ouve percebe que o nosso som não é só isso. O nosso primeiro CD teve ótimas críticas em todos lugares menos na Rock Brigade, justamente porque acharam nosso CD uma salada musical e que não tinha identidade, ou seja, eles sempre reclamaram que faltava originalidade e quando fazemos algo diferente eles metem a boca. Ainda citando o nosso primeiro CD, Eu Sei Que Vocês Vão Falar Mal..., tem música que é hardcore tosco, outra já é bubblegummer, outra é ska, outra é um punk rock clássico. O segundo CD está mais ou menos no mesmo estilo, mas tem até uma balada pop no meio. E já estamos pensando no terceiro CD, já estamos com algumas músicas prontas e acho que vai surpreender muita gente. Não vamos mais ficar presos ao punk rock. Mas uma boa definição para o Coice de Mula é um som honesto, fazemos o que queremos fazer. Vou citar algumas da influências musicais da banda: Ramones, Social Distortion, Rancid, Minutemen, Bob Dylan, Iggy Pop, David Bowie, The Smiths, RDP, Cólera, Muzzarelas, The Who, Hüsker Dü, Jerry Lee Lewis, Elvis, Creedence Clearwater Revival, Faith No More, New York Dolls, Varukers. Enfim, existem muitas influências, ouço de tudo sem preconceito e sempre consigo encontrar coisas boas nas bandas.

>>> Fale mais da influência da literatura marginal em suas músicas.
Enviada pelo usuário _imfood

Eu me identifico muito com as obras de alguns escritores marginais ou malditos. Sei que muitas pessoas não tem acesso, eu mesmo não tinha acesso a estes escritores porque a escola desistimula a sua leitura colocando um livro como "Senhora" para você ler quando você ainda é um moleque. E quando eu tive este acesso, pensei em alguma forma de passar esta informação. Pensei logo em passar esta informação nas músicas do Coice de Mula. Na mesma época o Plinio Marcos tinha falecido e como era um dos autores mais polêmicos do Brasil, resolvi adaptar o romance "Querô" dele, acabei fazendo a música de mesmo nome e depois ainda gravamos um videoclipe dela (está disponível no nosso site) e ainda dedicamos o primeiro CD ao Plinio Marcos. No nosso segundo CD, que não foi lançado ainda, fizemos uma música em homenagem à Charles Bukowski, a música fala sobre os cavalinhos, as mulheres e a bebida, ou seja, fala sobre Bukowski. O fórum da PUNKnet foi um lugar bem legal para esta troca de informações, onde passei alguma coisa que já tinha lido e outros usuários me sugeriram autores novos.

>>> Como foi tocar com o Lurkers uma das bandas mais importante do punk rock mundial?
Enviada pelo usuário Zé

Sinceramente, não foi grande coisa. Reconheço a importância do Lurkers na história do punk rock e gosto da música deles, já conhecia Lurkers desde que quando eu não tinha banda ainda e jamais achei que um dia eu iria tocar com eles. Aliás, o Arturo Bassick (vocal do Lurkers) é um inglês muito gente boa e simpático. Mas estes shows não costumam ser muito bons para as bandas de abertura, porque a galera ainda está entrando e a primeira banda já está rolando, o pessoal entra e como ainda não bebeu ficam todos tímidos para agitar, esta é a verdade. Mas fizemos nosso show como deveria ter sido, demos o nosso sangue no palco. E o mais legal de tudo é que depois que tocamos o Jão do Ratos de Porão, que estava na ocasião tocando alguns covers com o Holly TREE, chegou e falou que desde os Muzzarelas não surgia uma banda tão legal em Campinas. Aquilo foi algo muito legal para mim porque sou muito fã de RDP e também dos Muzzarelas. E isto é uma coisa que nunca vou esquecer. É uma pena nós ainda não termos tido a oportunidade de tocar com o RDP.

>>> Rapidinhas:
Enviadas pelo usuário resnick

>>> Uma frase: A diferença entre uma democracia e uma ditadura consiste em que na democracia você pode votar antes de obedecer às ordens. Charles Bukowski

>>> Uma pessoa: Patti Smith

>>> Um filme: Em Nome do Pai

>>> Um livro: Sonhos em Bunker Hill - John Fante

>>> Uma banda: Ramones

>>> Um sonho: Fazer uma turnê por outros países

>>> Granja, dá pra perceber que você é um cara que liga bastante pro visual. Você acha que isto aliado ao som da banda é uma boa arma para o reconhecimento? O visual, na sua opinião, criaria uma referência para a banda, como por exemplo: Coice de Mula, a banda do cara que toca de chapeu?
Enviada pelo usuário o menino que comeu a lua

Eu acho que o visual é algo que destaca e chama a atenção numa apresentação. Mas não acho que o visual deve sobrepor a música. A música sempre vai ser mais importante. E eu não ligo tanto para o visual pensando no Coice de Mula. Senão, falaria para todos usarem All-Star, chapéu, bigodes, etc... Mas não é bem assim, não existe regras para o visual na banda. Cada um se veste do jeito que quiser. E você pode me ver vestido da mesma forma nas ruas, não me visto especificamente para um show, já basta no nosso trabalho onde somos obrigados a nos vestir de uma forma que não gostamos. Mas apenas citando exemplos, gosto dos visuais de bandas como Ramones (jaquetas de couro, calça jeans e tênis surrado), Devo (perucas de nerd, óculos de nerd e roupas futuristicas), Hüsker Dü (cada integrante tinha seu próprio visual), Rancid (tattoos, moicanos, etc) entre outros.

>>> Qual seu conselho pra uma banda que está começando agora?
Enviada pelo usuário Punk Smile

Sinceramente eu não sei. Não sou a melhor pessoa para dar conselhos. Minha banda também está começando, fizemos 77 shows em 4 anos, espero que isto ainda seja o começo de tudo. Mas as dicas são básicas: não se prendam a estilos e modas. Façam músicas próprias. Gravar uma demo é muito importante. Gravou? Então mande para todos os seus contatos, deixe em casas de shows, para pessoas que fazem zines, sites sobre música, revistas especializadas. E corra atrás dos shows, uma banda ganha muita experiência tocando ao vivo, quanto mais shows melhor. Não ache que porque você tem uma banda você vai ser famoso e assinar um contrato com a Warner. E é isto, se a sua banda tiver uma proposta legal e fizer um som honesto vocês irão ter reconhecimento.

>>> E se no futuro alguma gravadora grande, ou um produtor conhecido, ofereça uma boa proposta pra vocês para lançá-los na mídia vocês aceitariam? Mesmo se para isso vocês tivessem que mudar o estilo para algo mais pop?
Enviada pelo usuário Renato

Claro que aceitaríamos uma boa proposta de uma gravadora grande ou de algum produtor, sem sombra de dúvidas. Aliás, estamos aceitando até propostas de pequenos selos... hehehe... Mas acho que é isto, seria muito bacana ter o nosso trabalho difundido para mais pessoas, tocar em rádios, etc. Não estamos correndo atrás disto mas se pintar uma proposta aceitaremos. Sobre o lance de ser mais pop para poder gravar acho que não vira. Tem que ser algo natural, nada imposto por uma gravadora que não entende de música. Quem faz a música é a banda o trabalho da gravadora é vender. Eu confesso que sou fã de música pop também. E acho que o Coice de Mula tem elementos pop misturado em sua música. Estamos compondo coisas mais acessíveis agora mas sem descaracterizar a banda. Somos uma banda que tem uma pegada punk rock, isto é a nossa marca. Jamais iremos fazer alguma mudança na banda só para sermos aceitos numa gravadora ou para vendermos mais.

>>> Conte uma história engraçada que aconteceu com a banda.
Enviada pelo usuário Zé

Acho que as situações ruins que enfrentamos acabaram se tornando coisas engraçadas com o passar do tempo. Lembro do nosso segundo show em 99, estávamos muito empolgados porque já iria ser o nosso primeiro show fora de Campinas, iríamos tocar na tocar numa faculdade em Itatiba, e só sei que na hora do show, tínhamos 30 minutos para tocar, caiu uma tempestade enorme e nós estávamos embaixo de um toldo, além da chuva de vento o lugar ficou alagado. Parecia o fim do mundo, mesmo assim tinha uns 10 malucos nos assistindo. Teve uma vez também que fomos tocar em Paulínia e quando chegamos no bar já tinha outra banda tocando e nós não iríamos poder tocar. Era um domingo e do lado tinha uma lojinha de skate, o dono abriu da loja puxou um extensão para nós e acabamos montando toda a aparelhagem na calçada da loja. Tocamos com o Punkada e com o God.Zilla neste dia, é lógico que ninguém parou para assisitr, alguns curiosos paravam o carro de vez em quando mas logo iam embora. Show memorável.

>>> Qual foi o melhor show da banda? E qual foi o pior?
Enviada pelo usuário Zé

Bom, foram muitos shows memoráveis. Mas posso destacar um realizado na Concha Acústica da Lagoa do Taquaral aqui mesmo em Campinas. Este show foi legal particularmente pela quantidade enorme de pessoas presentes e o melhor disto é que tivemos um retorno muito grande durante o show. Éramos a penúltima banda a tocar neste dia e quando começamos a tocar todo mundo desceu para perto do palco e foi incrível ver tanta gente pogando na nossa frente. O pior show foi o que fizemos no Volkana em SBC. Fomos escalados para ser a primeira banda, e tivemos que tocar para o bar vazio porque nos disseram que tinham um horário a cumprir e que teriam mais bandas. Mesmo assim nos deram 25 minutos para tocar o que é muito pouco. Beleza, subimos no palco e fizemos a nossa parte. Só que a segunda banda demorou mais de uma hora para subir no palco. Iria ter Mukeka di Rato e Questions mas no começo do show da terceira banda parou umas 12 viaturas da polícia e tiraram todo mundo do bar. Fim do show. O mais foda foi a falta de respeito e falta de organização do lugar.

>>> Já são 4 anos de banda... vocês continuam com o mesmo tesão de tocar ou passaram dessa fase já? Aliás, como você vê o futuro do Coice de Mula?
Enviada pelo usuário Davi

Não sei se algum dia vai acabar o tesão de tocar. Acho que isto é uma coisa que nunca se acaba. Tenho certeza que quando a banda acabar (porque tudo acaba algum dia) eu vou assistir o show de alguma banda pensando: "Putz, como eu queria poder estar em cima deste palco de novo". E para nós com o tempo está ficando cada vez melhor porque já nos conhecemos então fica bem mais fácil. E por ficar mais fácil acaba ficando mais divertido. Hoje nós subimos no palco sem repertório, sem nada previsto e já nem ligamos para os erros. Todos erram. Agora com relação ao futuro é algo impossível de prever o que vai acontecer. Mas gostaria de continuar fazendo mais shows, gravando mais discos, fazendo novas amizades e tomando a nossa cervejinha aí com os camaradas no show. Espero que a banda dure muito tempo ainda.

>>> Quando o novo CD (Punk roça stars) sai? Quais suas expectativas quanto a ele?
Enviada pelo usuário Zé

Este CD está dificíl de sair. Está gravado já faz um ano e ainda não conseguimos lançar. Era para ter sido lançado no começo do ano mas surgiram alguns imprevistos e tivemos que mudar de planos. Pensamos em tentar ajuda com algum selo para lançar mas logo desistimos. Agora, ele será lançado entre setembro e outubro deste ano pela Bosta Recs novamente, isto é, se não tivermos problemas com a nova lei que tornou todo processo um pouco mais burocrático. Sei lá, acho que o álbum não representa nada de novo no mundo musical, é basicamente mais um álbum de punk rock com muitas influências embutidas nele. E apesar de termos gravado ele em apenas 2 dias, ele ficou bem mais produzido e com uma gravação melhor que a do primeiro. Espero que seja bem aceito por todos. Mas se não for não tem problemas, eu gosto dele e na minha opinião é melhor do que muita coisa que está no mercado.

>>> Deixa aí o recado final pros leitores da PUNKnet e pra galera do fórum que participou dessa entrevista!

Queria dizer que odeio responder entrevistas... hehehe... Mas esta até que foi legal porque fui respondendo aos poucos conforme iam postando mais perguntas. Queria agradecer a você Davi pela oportunidade da entrevista e pelo site PUNKnet que desde o começo sempre deu maior força para as bandas nacionais, isto para mim sempre foi o ponto forte do site. Queria agradecer à galera do fórum por se interessarem e postarem suas perguntas, mas não tenho nem muito o que falar, apesar de não conhecê-los pessoalmente tenho a maior simpatia por todos e algum dia a gente se encontra em algum show. E queria agradecer também você, leitor da PUNKnet, por gastar um pouco do seu tempo para conhecer mais sobre a banda Coice de Mula. Sou eternamente grato à todos vocês. Cheers!!! Keep on punking!!!